quarta-feira, 8 de abril de 2026

As mãos- soneto de Manuel Alegre

 Com mãos se faz a paz se faz a guerra.

Com mãos tudo se faz e se desfaz. Com mãos se faz o poema - e são de terra. Com mãos se faz a guerra - e são a paz. Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra. Não são de pedras estas casas, mas de mãos. E estão no fruto e na palavra as mãos que são o canto e são as armas. E cravam-se no tempo como farpas as mãos que vês nas coisas transformadas. Folhas que vão no vento: verdes harpas. De mãos é cada flor, cada cidade. Ninguém pode vencer estas espadas: nas tuas mãos começa a liberdade. Manuel Alegre

https://youtu.be/sVL6X878xWQ?si=BtK9YWm72anaLUTZ

Liberdade

 Não hei-de morrer sem saber

               qual a cor da liberdade.
 
               Eu não posso senão ser
               desta terra em que nasci.
               Embora ao mundo pertença
               e sempre a verdade vença,
               qual será ser livre aqui,
               não hei-de morrer sem saber.
 
               Trocaram tudo em maldade,
               é quase um crime viver.
               Mas, embora encondam tudo
               e me queiram cego e mudo,
               não hei-de morrer sem saber
               qual a cor da liberdade.
 
Jorge de Sena    
(1919-1978)    

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Poema: Lápide

 

Luís Vaz de Camões.

Poeta infortunado e tutelar.

Fez o milagre de ressuscitar

A Pátria em que nasceu.

Quando, vidente, a viu

A caminho da negra sepultura,

Num poema de amor e de aventura

Deu-lhe a vida,

Perdida.

E agora,

Nesta segunda hora

De vil tristeza,

Imortal,

É ele ainda a única certeza

De Portugal.

 

Miguel Torga, Diário XIII


TPC

1.       Neste poema sobre Camões,  em que Miguel Torga também se refere à vida do poeta e à sua obra, que era lida durante a ditadura, o sujeito poético compara o tempo de Camões – o final do séc. XVI –    com o tempo vivido durante a ditadura. Há semelhanças? Quais são?